
Trecho do livro Crônicas – Volume Um, de Bob Dylan
Lou Levy, o chefão da Leeds Music Publishing, levou-me de táxi até o Pythian Temple, na West 70th Street, para me mostrar o mi - núsculo estúdio onde Bill Haley e Seus Cometas haviam gravado "Rock Around The Clock" - e dali para o restaurante de Jack Dempsey na 58th com Broadway, onde sentamos em uma ca bine forrada de couro vermelho que dava para a janela da frente.
Lou me apresentou a Jack Dempsey, o grande boxeador. Jack brandiu o punho na minha direção.
"Você parece leve demais para um peso-pesado, vai ter de ganhar uns quilos. Vai ter de se vestir um pouco melhor, ficar um pouco mais na moda - não que vá precisar de muita coisa em termos de roupa quando estiver no ringue; não tenha medo de bater forte demais em ninguém."
"Ele não é um boxeador, Jack, ele é um compositor e vamos lançar suas canções."
"Oh, sim, bem, espero ouvi-las um dia desses. Boa sorte para você, garoto."
Lá fora o vento soprava, dispersando nuvens esfarrapadas, a neve rodopiava nas ruas de luzes avermelhadas, tipos urbanos se arrastavam por ali entrouxados - vendedores com orelheiras de pele de coelho que pareciam aqueles troços de falcoaria, vendedores ambulantes de castanha, o vapor subindo dos bueiros.
Nada daquilo parecia importante. Eu tinha acabado de assinar um contrato com a Leeds Music dando a eles o direito de publicar minhas canções - não que houvesse muito para se alardear. Eu ainda não havia escrito muita coisa. Lou me adiantara cem dólares dos futuros royalties para assinar o documento, e para mim estava bom.
John Hammond, que me trouxera para a Columbia Records, tinha me levado até Lou e pedido a ele para que tomasse conta de mim. Hammond tinha ouvido apenas duas das minhas composições originais, mas teve a premonição de que haveria mais.
De volta ao escritório de Lou, abri o estojo do violão, tirei-o e comecei a dedilhar as cordas. A sala era uma desordem: caixas com partituras empilhadas, datas de gravação de artistas afixadas em quadros de aviso, discos pretos, acetatos com selos brancos amontoados, fotos assinadas de artistas, retratos vistosos - Jerry Vale, Al Martino, The Andrews Sisters (Lou era casado com uma delas), Nat King Cole, Patti Page, The Crew Cuts -, dois gravadores de rolo, uma mesa grande de madeira castanhoescura cheia de bugigangas. Lou havia colocado um microfone em cima da mesa à minha frente e ligado o fio em um dos gravadores, mascando um charutão exótico o tempo todo.
"John tem grandes esperanças em você", disse Lou.
John era John Hammond, o grande caçador de talentos e descobridor de artistas monumentais, que lançou personalidades da história da música - Billie Holiday, Teddy Wilson, Charlie Christian, Cab Calloway, Benny Goodman, Count Basie, Lionel Hampton. Artistas que criaram a música que ressoa através da vida americana. Ele trouxe tudo isso a público. Hammond tinha até conduzido a última sessão de gravação de Bessie Smith. Era legendário, aristocracia americana pura. Sua mãe era uma Vanderbilt legítima, e John fora criado na alta-roda, no conforto e na comodidade - mas não se sentia satisfeito e então seguiu sua paixão, a música, em especial o ritmo vibrante do hot jazz, spirituals e blues, os quais apoiou e defendeu com a própria vida. Ninguém podia barrar seu caminho, e ele não tinha tempo a perder. Mal pude acreditar que eu estava mesmo acordado quando sentei em seu escritório; ser contratado por ele para a Columbia Records era inacreditável. Parecia um delírio.
A Columbia era um dos primeiros e principais selos do país, e, para mim, até mesmo cruzar pela porta era coisa séria. Para começar, música folk era considerada uma porcaria, coisa de segunda, e era lançada apenas por selos pequenos. Gravadoras grandonas eram estritamente para a elite, para música higienizada e pasteurizada. Alguém como eu jamais seria admitido, exceto em circunstâncias extraordinárias. Mas John era um homem extraordinário. Ele não fazia discos para colegiais nem gravava artistas colegiais. Era um homem de visão e previsão, tinha me visto e ouvido, captado meus pensamentos e levado fé nas coisas que estavam por vir. Explicou que me via como alguém na linha de uma longa tradição, a tradição do blues, jazz e folk, e não como alguma maravilha modernosa inovadora. Não que houvesse qualquer coisa inovadora acontecendo. As coisas estavam bem apáticas na cena musical americana no final dos 50 e começo dos 60. As rádios populares estavam em uma espécie de imobilidade, recheadas de entretenimento vazio. Isso foi nos anos anteriores àqueles em que os Beatles, The Who ou os Rolling Stones sopraram vida nova e excitação para dentro do rádio. O que eu tocava na época eram canções de folk com letras fortes e atrevidas, guarnecidas com fogo e enxofre, e você não precisa de pesquisas de opinião para saber que elas não combi navam com nada das rádios, que não se prestavam ao lance comercial, mas John me disse que essas coisas não estavam entre as suas prio ridades e que compreendia todas as implicações do que eu fazia.
"Compreendo a sinceridade", foi o que ele disse. John falou com uma atitude ríspida e grossa; entretanto, havia um vislumbre de apreciação no olhar dele.
Recentemente, ele havia levado Pete Seeger para o selo. Mas não o descobriu. Pete andava por aí há anos. Tinha feito parte do popular grupo de folk The Weavers, mas entrara na lista negra durante a era McCarthy e tinha passado por tempos difíceis; porém, jamais tinha parado de trabalhar. Hammond era beligerante quando falava sobre Seeger, dizia que os ancestrais de Pete haviam chegado no Mayflower, que seus parentes tinham lutado na batalha de Bunker Hill, pelo amor de Deus. "Dá para imaginar esses filhos-da-put* colocando-o na lista negra? Deviam ser cobertos de piche e penas."
"Vou dar a real para você", disse ele. "Você é um jovem talentoso. Se conseguir focar e controlar esse talento, vai se dar bem. Vou trazê-lo para cá e gravá-lo. Vamos ver o que acontece." E isso estava mais do que bom para mim. Ele pôs um contrato na minha frente, o tipo padrão, e eu assinei na mesma hora, não entrei em detalhes - não precisei de advogado, consultor ou qualquer um olhando por cima do meu ombro. Eu teria assinado alegremente qualquer documento que ele pusesse na minha frente.
Ele olhou no calendário, escolheu uma data para eu começar a gravar, indicou-a e fez um círculo ao redor, disse a hora em que eu devia chegar e que era para eu pensar no que queria tocar.
A seguir chamou Billy James, o chefe de publicidade do selo, disse a Billy para escrever uma matéria promocional sobre mim, algo pessoal para divulgação na imprensa.
Billy se vestia no estilo Ivy League, como se tivesse saído de Yale - estatura mediana, cabelo preto crespo. Parecia que nunca tinha se chapado na vida, que jamais se metera em qualquer tipo de problema. Fui até o escritório dele, sentei do outro lado da mesa, e ele tentou me fazer desembuchar alguns fatos, como se eu tivesse de entregá-los de bandeja. Pegou um bloco de notas e um lápis e me perguntou de onde eu vinha. Eu disse que vinha de Illinois, e ele anotou. Perguntou se eu já havia trabalhado em alguma outra coisa, e contei que tinha tido uma dúzia de empregos, até dirigido um caminhão de padaria certa vez. Ele anotou e perguntou se havia mais alguma coisa. Eu disse que havia trabalhado em construção, e ele indagou onde.
"Detroit."
"Você viajou por aí?"
"Sim."
Perguntou sobre a minha família, onde ela estava. Eu disse que não fazia idéia, que eles tinham sumido há muito tempo.
"Como era a sua vida em casa?"
Falei que tinham me mandado embora.
"O que o seu pai fazia?"
"Eletricista."
"E sua mãe, que tal?"
"Dona de casa."
"Que tipo de música você toca?"
"Música folk."
"E que tipo de música é a folk?"
Disse a ele que eram canções tradicionais. Eu detestava aquele tipo de pergunta. Achava que podia ignorá-las. Billy parecia incerto a meu respeito, e assim estava muito bom. De qualquer modo, eu não estava disposto a responder às perguntas dele, não estava a fim de explicar nada para ninguém.
"Como você chegou aqui?", ele perguntou.
"Peguei um trem de carga."
"Quer dizer, um trem de passageiros?"
"Não, um trem de carga."
"Quer dizer, em um vagão de carga?"
"Isso aí, um vagão de carga. Um trem de carga."
"Ok, um trem de carga."
Meu olhar passou por Billy, pela cadeira dele, pela janela, foi para o outro lado da rua, até um prédio de escritórios onde pude ver uma secretária fulgurante imersa na essência de alguma coisa - atarefada rabiscando, ocupada em sua mesa de um jeito meditativo. Não havia nada de divertido nela. Desejei ter um telescópio. Billy perguntou com quem eu me achava parecido na cena musical do momento. Ninguém, eu disse a ele. Essa parte era verdade, eu não me achava parecido com ninguém. O resto, entretanto, foi pura baboseira - papo de doidão.
Eu não tinha vindo de trem de carga coisíssima nenhuma.
O que fiz foi atravessar o país desde o Meio-Oeste em um sedã quatro portas Impala 57 - direto de Chicago, dando o fora de lá, correndo por todo o trajeto, por cidades enfumaçadas, estradas sinuosas, campos verdes cobertos de neve, em frente, rumo ao Leste, cruzando as divisas estaduais, Ohio, Indiana, Pennsylvania, uma viagem de 24 horas, cochilando no banco de trás a maior parte do caminho, batendo papo furado. Minha mente fixada em interesses ocultos... e então finalmente rodando sobre a ponte George Washington.
O carrão parou do outro lado da ponte, e eu saí. Bati a porta atrás de mim, dei adeus, avancei para a neve espessa. O vento cortante me atingiu no rosto. Enfim eu estava ali, em Nova York, a cidade que parecia uma teia complexa demais para se entender, e eu não iria tentar.
Eu estava ali para encontrar cantores, aqueles que eu tinha ouvido em discos - Dave Van Ronk, Peggy Seeger, Ed McCurdy, Brownie McGhee e Sonny Terry, Josh White, The New Lost City Ramblers, Reverendo Gary Davis e um monte de outros -, e, acima de tudo, para encontrar Woody Guthrie. Nova York, a cidade que viria a moldar meu destino. Gomorra moderna. Eu estava no marco zero, mas não era de modo algum um neófito. Quando cheguei, o inverno estava de matar. O frio era brutal, e cada artéria da cidade estava entupida de neve, mas eu tinha vindo do norte enregelado, um cantinho da terra onde bosques sombrios congelados e estradas glaciais não me chateavam. Eu podia transcender as limitações. Não estava em busca de dinheiro nem de amor. Tinha um senso de percepção ampliado, estava firme no meu rumo; para completar, era inexperiente e visionário. Minha mente estava forte como uma armadilha, e eu não precisava de qualquer garantia. Não conhecia vivalma naquela metrópole sombria e enregelante, mas tudo estava prestes a mudar - e depressa.
O Café Wha? era um clube na MacDougal Street, no coração do Greenwich Village. O lugar era uma caverna subterrânea, não servia bebida alcoólica, mal-iluminado, teto baixo, como um salão de jantar amplo com cadeiras e mesas - abria ao meio-dia, fechava às quatro da manhã. Alguém me disse para ir lá e procurar por um cantor chamado Freddy Neil, que comandava o show diurno do Wha?
Encontrei o lugar e me disseram que Freddy estava no porão, onde guardavam casacos e chapéus, e foi lá que o encontrei. Neil era o mestre-de-cerimônias e maestro no comando de todos os artistas. Ele não poderia ter sido mais legal. Perguntou o que eu fazia, e eu respondi que cantava, tocava violão e harmônica. Ele pediu que eu tocasse alguma coisa. Cerca de um minuto depois, disse que eu podia tocar harmônica com ele durante seus números. Fiquei extasiado. Pelo menos era um lugar para sair do frio. Foi bom.
Fred tocava por cerca de vinte minutos e então apresentava todas as demais atrações, depois voltava para tocar sempre que ficava a fim, sempre que a casa estivesse lotada. As atrações eram desconexas, esquisitas, e pareciam saídas de Amateur Hour, um popular programa de TV de Ted Mack. A platéia era basicamente de tipos colegiais, suburbanos, secretárias no intervalo do almoço, marinheiros e turistas. Todo mundo se apresentava durante dez a quinze minutos. Fred tocava o quanto estivesse a fim, o quanto durasse a inspiração. Ele tinha fluência - vestido de um jeito conservador, emburrado e taciturno, com olhar enigmático, pele de pêssego, cabelo salpicado de cachos - e um barítono poderoso e irado que desferia notas tristes e as espatifava contra as vigas do teto com ou sem microfone. Era o imperador do lugar, tinha até o seu próprio harém, suas devotas. Ele era intocável. Tudo girava em torno dele. Anos depois, escreveu o sucesso "Every body's Talkin". Nunca toquei nada meu lá. Apenas acompanhei Neil nas coisas dele, e foi como comecei a me apresentar regularmente em Nova York.
O show diurno no Café Wha?, uma mixórdia extravagante, aceitava qualquer um e qualquer coisa - um comediante, um ventríloquo, um grupo de steel drum, um poeta, uma imitadora, um duo que cantava coisas da Broadway, um mágico com um coelho na cartola, um cara de turbante que hipnotizava gente da platéia, um outro cujo número inteiro era de acrobacias faciais, simplesmente qualquer um que quisesse entrar para o show business. Nada que fosse mudar a sua visão do mundo. Eu não desejaria o trampo de Fred por nada.
Por volta das oito horas, toda a função diurna parava, e então começava o show profissional. Comediantes como Richard Pryor, Woody Allen, Joan Rivers, Lenny Bruce e grupos de folk comercial, como The Journeymen, comandavam o palco. Todo mundo que estivera ali durante o dia caía fora. Um dos caras que tocavam de tarde era Tiny Tim, que tinha voz de falsete. Tocava guitarra havaiana e cantava como uma garota - velhas canções clássicas dos anos 20. Falei com ele algumas vezes e perguntei que outros lugares para trabalhar havia ali por perto, e ele disse que às vezes tocava em uma casa da Times Square chamada Hubert's Flea Circus Museum. Eu descobriria o local mais tarde. Fred era constantemente importunado e pressionado pelos mais variados tipos de bicões que queriam apresentar uma coisa ou outra. O personagem mais triste de todos era um cara chamado Billy the Butcher (Billy, o Açougueiro). Parecia saído diretamente do beco de um pesadelo. Tocava somente uma canção - "High-Heel Sneakers" - e estava viciado nela como em uma droga. Fred geralmente deixava-o tocar um tempo durante o dia, principalmente quando o lugar estava vazio. Billy sempre introduzia sua canção dizendo: "Essa é para todas vocês, gatas". O Açougueiro usava um sobretudo pequeno demais para ele, apertado no peito. Era irrequieto e em algum momento do passado estivera dentro de uma camisa-de-força em Bellevue, e também havia queimado um colchão em uma cela de cadeia. Todos os tipos de coisas ruins tinham acontecido com Billy. Rolava um clima pesado entre ele e todos os demais. No entanto, ele cantava aquela canção muito bem.
Outro cara popular usava um traje de padre, botas com detalhes vermelhos e sininhos e fazia encenações deturpadas de histórias tiradas da Bíblia. Moondog também se apresentava lá. Moondog era um poeta cego que vivia basicamente na rua. Usava um elmo viking, um cobertor e botas altas de pele. Moondog fazia monólogos, tocava flautas de bambu e apitos. Na maior parte do tempo, apresentava-se na 42nd Street.
Minha cantora favorita do lugar era Karen Dalton. Era uma intérprete de blues alta e magra, tocava violão e era esquisita, desengonçada e calorosa. Na verdade, eu já havia encontrado Karen antes, topara com ela no verão anterior nos arredores de Denver, em uma cidade no desfiladeiro da montanha, em um clube de folk. Karen tinha voz parecida com a de Billie Holiday, tocava violão como Jimmy Reed e seguia em frente assim. Cantei com ela algumas vezes.
Fred sempre tentava dar espaço para a maioria dos artistas e era tão diplomático quanto possível. Às vezes a sala estava inexplicavelmente vazia, às vezes semivazia e então, de repente, sem nenhum motivo aparente, ficava inundada de pessoas, com filas do lado de fora. Fred era o cara ali, a atração principal, e seu nome estava na marquise; desse modo, talvez um monte daquela gente fosse lá para vê-lo. Não sei. Ele tocava um violão bem grande, de um jeito impetuoso, com um monte de percussão, num ritmo penetrante - um homem-banda, uma cantoria que era um chute na cabeça. Fazia versões híbridas e ferozes de canções entoadas pelos prisioneiros nas penitenciárias e arrastava a platéia para o frenesi. Ouvi umas coisas sobre ele, que fora um marinheiro errante, que tinha um barco a remo ancorado na Flórida, que era um tira do submundo, que tinha amigas prostitutas e um passado sombrio. Ele havia ido a Nashville, largado por lá as canções que escrevera e a seguir rumado para Nova York, onde permanecia por baixo, à espera de que algo estourasse e enchesse seus bolsos de grana. Qualquer que fosse, não era uma grande história. Ele parecia não ter aspirações. Éramos muito compatíveis, não falávamos absolutamente nada de pessoal. Ele era muito parecido comigo; educado, mas não excessivamente amistoso, me dava uns trocados no fim do dia e dizia: "Toma aqui... para você ficar fora de encrenca".
A melhor coisa de trabalhar com ele, entretanto, era estritamente gastronômica - todas as batatas fritas e hambúrgueres que eu conseguisse comer. Em algum momento do dia, Tiny Tim e eu íamos para a cozinha e ficávamos por lá. Norbert, o cozinheiro, geralmente tinha um hambúrguer gorduroso à espera. Ou isso, ou nos deixava esvaziar uma lata de carne de porco com feijão ou de espaguete em uma frigideira. Norbert era uma viagem. Usava um avental manchado de tomate, tinha um rosto carnudo e duro, bochechas salientes, cicatrizes como marcas de garras - se achava irresistível para as mulheres -, economizava o dinheiro para poder ir a Verona na Itália e visitar a tumba de Romeu e Julieta. A cozinha era como uma caverna escavada na parede de um rochedo. Certa tarde, eu estava lá dentro despejando Coca em um jarro de leite quando ouvi uma voz bacana vindo através da tela do alto-falante do rádio. Ricky Nelson estava cantando sua nova canção, "Travelin' Man". Ricky tinha um toque suave, o jeito como cantarolava em ritmo veloz, a entonação de sua voz. Era diferente do resto dos ídolos adolescentes, a começar porque tinha um ótimo guitarrista, que tocava como se fosse uma cruza de herói de cabaré com violinista de baile de galpão. Nelson jamais foi um inovador audacioso como os primeiros cantores que cantavam como se estivessem navegando em barcos em chamas. Não cantava com desespero, não causava muito estrago, e você nunca o confundiria com um xamã. Jamais parecia que sua resistência estivesse sendo testada ao máximo, mas não importava. Ele cantava suas canções com calma e firmeza, como se estivesse no meio de uma tempestade, homens passando por ele em disparada. A voz dele era meio que misteriosa, e fazia você cair em um certo estado de espírito.
Eu havia sido um grande fã de Ricky e ainda gostava dele, mas aquele tipo de música já estava de saída. Não havia chance de que significasse qualquer coisa. Não haveria futuro para aquilo no futuro. Era tudo um equívoco. O que não era um equívoco era o fantasma de Billy Lyons botando a montanha abaixo, perambulando pelo Cairo oriental, Black Betty bam be lam. Isso não era um equívoco. Era o lance que estava rolando. Era o lance que podia fazer você questionar o que sempre havia aceitado, que podia bagunçar a paisagem com corações partidos, que tinha poder de espírito. Ricky, como sempre, estava cantando letras limpinhas. Letras provavelmente escritas para ele. Contudo, sempre me senti afinado com ele. Tínhamos mais ou menos a mesma idade, provavelmente gostávamos das mesmas coisas, éramos da mesma geração, embora nossa experiência de vida fosse tão dessemelhante, já que ele fora criado no Oeste como se fosse personagem de um programa de TV bem família. Era como se ele tivesse nascido e crescido em Walden Pond, onde tudo era certinho, e eu tivesse saído dos sombrios bosques demoníacos; a mesma floresta, apenas um jeito diferente de olhar as coisas. O talento de Ricky era muito acessível para mim. Eu sentia que tínhamos muito em comum. Dentro de poucos anos ele gravaria algumas de minhas canções, faria com que soassem como se fossem dele, como se ele mesmo as tivesse escrito. Por fim ele escreveu uma e citou meu nome nela. Uns dez anos depois, Ricky seria até vaiado no palco por mudar o que era visto como sua direção musical. No fim das contas, tínhamos mesmo muito em comum.
Não havia como saber disso parado na cozinha do Café Wha?, ouvindo aquela voz arrastada, suave, monótona. A coisa era que Ricky continuava fazendo discos, e era isso que eu queria fazer também. Eu me imaginava gravando para a Folkways Records. Aquele era o selo no qual eu queria estar. Aquele era o selo que lançava todos os grandes discos.
A canção de Ricky acabou, dei o resto de minhas batatas fritas para Tiny Tim e voltei para a sala externa para ver o que Fred estava armando. Certa vez, perguntei a Fred se ele tinha discos lançados, e ele disse: "Essa não é a minha parada". Ele usava as trevas como uma arma musicalmente potente, mas, hábil e poderoso como era, faltava-lhe alguma coisa como artista. Eu não conseguia decifrar o que era. Quando vi Dave Van Ronk eu soube.
Van Ronk trabalhava no Gaslight, um clube misterioso de presença dominante na rua; tinha mais prestígio do que qualquer outro lugar. Tinha mística, um grande estandarte colorido na frente e pagava um salário semanal. Ficava na descida de um lance de escadas, ao lado de um bar chamado Kettle of Fish; no Gaslight não havia birita, mas dava para levar uma garrafa em um saco de papel. Ficava fechado de dia e abria ao anoitecer com cerca de seis apresentações que se alternavam ao longo da noite, um círculo fechado no qual um estranho não podia pe netrar. Não havia audições. Era um clube onde eu queria tocar, precisava fazê-lo.
Van Ronk tocava lá. Eu tinha ouvido discos de Van Ronk no Meio-Oeste e o achava demais, copiei algumas de suas gravações frase por frase. Ele era apaixonado e mordaz, cantava como um mercenário e soava como alguém que realmente paga para ver. Van Ronk sabia uivar e sussurrar, transformar blues em baladas e baladas em blues. Eu adorava o estilo dele. Era a cara da cidade. No Greenwich Village, Van Ronk era o rei das ruas, e reinava absoluto.
Certa vez, em um dia frio de inverno, perto da Thompson com a 3rd, em meio a uma rajada de neve fina, com um sol débil filtrando-se através da névoa, eu o vi caminhando em minha direção num silêncio gélido. Era como se o vento o soprasse no meu caminho. Eu queria falar com ele, mas não rolou. Observei-o passar, vi o lampejo do olhar dele. Foi um momento fugaz, e eu deixei passar. Contudo, eu queria tocar para ele. Na verdade, eu queria tocar para qualquer um. Jamais conseguia ficar em uma sala e tocar somente para mim. Precisava tocar para pessoas o tempo todo. Pode-se dizer que eu praticava em público, e que toda a minha vida estava se tornando o que praticava. Eu estava de olho no Gaslight. E como não? Comparado a ele, o resto dos lugares na rua eram anônimos e miseráveis, uns botecos de baixo nível, ou pequenos cafés onde o artista passava o chapéu. Mas comecei a tocar tanto quanto podia. Eu não tinha escolha. As ruas estreitas estavam repletas desses lugares. Eram pequenos e variavam no formato, barulhentos e com som alto, sob medida para os turistas que fervilhavam pelas ruas à noite. Para mim qualquer coisa servia - salões de porta dupla, locais térreos, prédios de dois andares, porões abaixo do nível da rua, todo e qualquer buraco na parede. Havia um lugar bem incomum que servia cerveja e vinho na 3rd Street, no que havia sido a estrebaria de Aaron Burr, agora chamado Café Bizarre. Os clientes eram basicamente trabalhadores que sentavam por lá rindo, praguejando, comendo carne vermelha, falando de mulher. Havia um pequeno palco no fundo, e toquei lá uma ou duas vezes. Provavelmente toquei em todos os lugares uma vez ou outra. A maioria deles ficava aberta até o raiar do dia, lampiões de querosene e serragem no chão, alguns com bancos de madeira, um cara fortão na porta - sem taxa de couvert, e os proprietários tentavam empurrar nos clientes tanto café quanto conseguissem. Os artistas sentavam ou ficavam à janela, visíveis da rua, ou eram posicionados na extremidade oposta da sala, de cara para a porta, cantando a plenos pulmões. Nada de microfones, nem de coisa nenhuma.
Os caçadores de talento não davam as caras naqueles antros. Eram escuros e encardidos, e a atmosfera caótica. Os artistas cantavam e passavam o chapéu ou tocavam enquanto observavam os turistas passar em fila, esperando que algum deles jogasse umas moedas dentro de uma cesta de pão ou do estojo do violão. Nos fins de semana, se tocasse em todas as espeluncas do entardecer ao amanhecer, você podia fazer talvez uns vinte dólares.
Noites durante a semana eram difíceis de prever. Às vezes não rendia muito por causa da competição. Você tinha que conhecer um truque ou dois para sobreviver.
Um cantor com quem cruzei pelo caminho várias vezes, Richie Havens, sempre tinha consigo uma menina bonita que passava o chapéu, e notei que ele sempre ganhava bem. Às vezes ela passava dois chapéus. Se você não tivesse esse tipo de truque, acabaria como uma presença invisível, o que não era uma boa. Algumas vezes, me juntei com uma garota que conhecia do Café Wha?, uma garçonete que tinha o maior visual. Íamos de lugar em lugar, eu tocava e ela fazia a coleta, usava um gorro engraçado, rímel preto e espesso, blusa de renda decotada - parecia quase nua da cintura para cima sob um casaco com ares de capa. Depois eu dividia o dinheiro com ela, mas era um saco fazer isso o tempo todo. No entanto, eu ganhava mais dinheiro quando ela estava comigo do que trabalhando sozinho.
O que realmente me deixava excluído naquele tempo era o meu repertório. Era mais exigente que o do resto dos músicos de café, meu padrão eram canções de folk hard-core acompanhadas por um dedilhado em alto volume. Ou eu mandava as pessoas embora, ou elas chegavam mais perto para ver qual era. Não havia meio-termo. Havia um monte de cantores e músicos melhores naqueles lugares, mas não havia ninguém parecido em gênero ao que eu estava fazendo. As canções de folk eram a maneira de eu explorar o universo, eram imagens, e as imagens valiam mais do que qualquer coisa que eu pudesse dizer. Eu conhecia a substância íntima da coisa. Podia ligar os pedaços facilmente. Para mim não significava nada apresentar coisas como "Columbus Stockade", "Pastures of Plenty", "Brother in Korea" e "If I Lose", "Let Me Lose" de qualquer jeito, emendadas umas nas outras como se fossem apenas uma única longa canção. A maioria dos outros artistas tentava conseguir aceitação para si mesmos em vez de para a canção, mas eu não me interessava em fazer isso. Comigo, a coisa era fazer a canção ser aceita. Parei de ir ao Café Wha? de tarde. Jamais botei os pés lá de novo. Perdi o contato com Freddy Neil também. Em vez de ir lá, comecei a andar pelo Folklore Center, a cidadela da música folk americana. O lugar também ficava na MacDougal Street, entre a Bleecker e a 3rd. A lojinha era no alto de uma escada e possuía um encanto antiquado. Era como uma capela antiga, como um instituto do tamanho de uma caixa de sapatos. O Folklore Center vendia e anunciava tudo o que tivesse a ver com música folk. Tinha uma janela ampla de vidro trabalhado onde os discos e instrumentos ficavam expostos.
Certa tarde, subi as escadas e fiquei vagando por ali. Dei uma olhada ao redor e encontrei Izzy Young, o proprietário. Ele era um fã de folk tradicional, muito sarcástico, e usava óculos grossos com aros de chifre, falava um dialeto impenetrável do Brooklyn, usava calças de lã, cinto estreito e botas de operário, gravata em um ângulo descuidado. Sua voz era como uma máquina de terraplenagem, e sempre parecia alta demais para a saleta. Izzy estava sempre um pouco agitado por alguma coisa ou outra. Era generoso de um jeito desleixado. Na realidade, um romântico. Para ele, a música folk reluzia como um monte de ouro. Para mim também. O lugar era um ponto de intersecção para toda a atividade folk concebível e a todo momento você podia ver cantores de folk da pesada ali. Algumas pessoas até pegavam sua correspondência lá.
Ocasionalmente, Young produzia concertos para artistas inequivocamente autênticos de folk e de blues. Ele os levava para fora da cidade para tocar em Town Hall ou em alguma universidade. Em certas ocasiões vi Clarence Ashley, Gus Cannon, Mance Lipscomb, Tom Paley, Erik Darling perambulando por lá. Também havia um monte de discos de folk esotérico, todos discos que eu queria ouvir. Folhas apagadas de canções de todos os tipos - cantos de trabalho dos marinheiros, canções da guerra civil, canções de caubói, canções de lamento, canções de igreja, canções anti-Jim Crow, canções sindicais -, livros arcaicos de fábulas de folk, publicações do Wobbly, panfletos de propaganda a respeito de tudo, dos direitos das mulheres aos perigos da bebida, um de Daniel De Foe, o inglês que escreveu Moll Flanders. Alguns instrumentos à venda, cítaras, banjos de cinco cordas, kazoos, flautins baratos, violões, bandolins. Se você quisesse saber qual era o lance da música folk, aquele era o lugar onde poderia obter mais do que um mero vislumbre.
Izzy tinha uma sala nos fundos com um fogão a lenha bojudo, quadros tortos e cadeiras raquíticas - velhos patriotas e heróis na parede, cerâmica com motivos geométricos, castiçais pretos laqueados... montes de coisas ligadas a artesanato. A saleta estava cheia de discos americanos e uma vitrola. Izzy me deixava ficar lá atrás e escutá-los. Eu escutava o quanto pudesse, até folheava um monte de seus pergaminhos de folk antediluvianos.
O mundo moderno loucamente complicado era algo pelo que eu tinha pouco interesse. Não tinha relevância, não tinha valor. Não me seduzia. O que tinha balanço, era atual e quente para mim eram coisas como o naufrágio do Titanic, a enchente de Galveston, o operário da construção de ferrovias John Henry, John Hardy atirando em um homem na fronteira de West Virginia. Tudo isso Sindicato Industrial Workers of the World. (N. da T.) era atual, aconteceu em público. Eram essas as notícias que eu levava em consideração, acompanhava e não perdia de vista. No que se refere a não perder coisas de vista, Izzy também mantinha um diário. Era uma espécie de livro de contabilidade que ele deixava aberto em cima da mesa. Ele fazia perguntas sobre mim, tipo onde eu havia crescido e como tinha me interessado por música folk, onde a descobrira, coisas assim. Então escrevia sobre mim no diário. Eu não conseguia imaginar por quê. As perguntas eram maçantes, mas gostava dele porque era afável comigo, e eu tentava ser atencioso e acessível. Eu era muito cuidadoso quando falava com gente de fora, mas Izzy era legal, e eu respondia com franqueza.
Ele perguntou sobre a minha família. Contei que minha avó por parte de mãe morava conosco. Ela era cheia de nobreza e bondade, e certa vez me disse que a felicidade não está na estrada que leva a algum lugar. A felicidade é a própria estrada. Também me ensinou a ser gentil porque todo mundo que você encontra está travando uma dura batalha.
Eu não podia imaginar quais eram as batalhas de Izzy. Internas, externas, quem sabe? Young era um homem que se preocupava com injustiça social, fome e falta de moradia, e não fazia cerimônia na hora de dizer isso. Seus heróis eram Abraham Lincoln e Frederick Douglass. Moby Dick, a história definitiva de pesca, era sua narrativa favorita. Young vivia sitiado pelos cobradores e pelas ordens do senhorio. As pessoas estavam sempre à caça dele por causa de dinheiro, mas aquilo não parecia perturbálo. Ele tinha um bocado de resistência, até brigara com a prefeitura para que permitissem tocar música folk no Washington Square Park. Todo mundo estava a favor dele.
Ele pegava discos para mim. Me deu um disco do Country Gentlemen e disse que eu devia escutar "Girl Behind the Bar". Tocou "White House Blues", de Charlie Poole, e disse que seria perfeita para mim, e ressaltou que aquela era a versão exata que The Ramblers tinham feito. Tocou "Somebody's Got to Go" de Big Bill Broonzy para mim, e essa também era bem do meu gosto. Eu gostava de ficar lá com Izzy. O fogo estava sempre crepitando.
Num certo dia de inverno um cara grande e corpulento entrou vindo da rua. Era como se tivesse saído da embaixada russa, sacudiu a neve das mangas do casaco, tirou as luvas e colocou-as sobre o balcão, pediu para ver a guitarra Gibson que estava pendurada na parede de tijolos. Era Dave Van Ronk. Ele era ríspido, uma massa de cabelo eriçado, uma atitude de quem não dava a mínima, um caçador confiante. Minha mente disparou. Não havia nada entre o homem e eu. Izzy baixou a guitarra e deu-a a ele. Dave dedilhou as cordas e tocou uma espécie de valsa com jazz, aí colocou a guitarra em cima do balcão. Quando ele largou a guitarra, me adiantei, pus as mãos nela e ao mesmo tempo perguntei como se fazia para trabalhar no Gaslight, quem era preciso conhecer? Eu não estava tentando fazer amizade com ele, só queria saber. Van Ronk olhou para mim curioso, ele era presunçoso e mal-humorado, perguntou se eu fazia faxina.
Eu disse que não, não fazia e ele podia tirar aquela idéia da cabeça, mas será que eu poderia tocar algo para ele? Ele disse: "Claro".
Toquei "Nobody Knows You When You're Down and Out". Dave gostou do que ouviu e perguntou quem eu era e há quanto tempo estava na cidade, então disse que eu poderia chegar ali pelas oito ou nove da noite e tocar umas canções no número dele. Foi assim que conheci Dave Van Ronk.
Saí do Folklore Center e voltei para o clima enregelante. Ao anoitecer, eu estava na Mills Tavern, na Bleecker Street, onde os cantores de boteco se juntavam em bando, tagarelavam e faziam estardalhaço. Meu amigo Juan Moreno, guitarrista de flamenco, falou de uma nova cafeteria que abrira há pouco na 3rd Street, chamada Outré, mas eu mal escutava. Os lábios de Juan estavam se mexendo, mas se mexiam quase sem som. Eu jamais tocaria na Outré, não precisaria tocar lá. Eu logo seria contratado para tocar no Gaslight e jamais veria os botecos de novo. Do lado de fora da Mills Tavern o termômetro estava se aproximando dos 25 graus negativos. Minha respiração congelava no ar, mas eu não sentia o frio. Eu rumava para as luzes fantásticas. Não havia dúvida. Será que eu podia estar enganado? Provavelmente não. Não achava que tivesse imaginação suficiente para estar enganado; tampouco tinha falsas esperanças. Eu tinha vindo de muito longe e começado muito de baixo. Mas agora o destino estava prestes a se mani festar. Senti como se ele estivesse olhando direto para mim e para mais ninguém.



